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Sebastião Rodrigues: comunicação visual em contexto de mudança

Sebastião Rodrigues desenvolveu a sua actividade de “artista gráfico” (na altura ainda não se utilizava a designação de designer), num contexto de mudanças simultâneas: tecnológicas, no que se referia à sua actividade profissional, políticas e ainda criativas e culturais. No entanto atravessou todo este período conseguindo levar a cabo uma “pesquisa” individual sobre uma certa forma pessoal de “portugalidade”, e criando ao longo do seu trabalho um léxico visual coerente que foi crescendo por acumulação e relação entre os seus elementos, mas que nunca se afirmou de forma autónoma em relação ao trabalho concreto que desenvolvia, pelo contrário, embora transforme a sua produção em objectos gráficos de reconhecimento quase imediato. O que mostra que existiu sempre um diálogo feliz e frutuoso, entre a sua linguagem visual pessoal, de certo modo global, e a situação concreta de cada projecto.

Evolução das tecnologias de impressão

No que se refere às tecnologias de impressão, deve destacar-se o seu conhecimento, desde criança, da composição através de tipos em metal, pois o seu pai trabalhava no jornal “A Voz”, que ainda utilizava esta tecnologia de impressão; este conhecimento deve ter-lhe dado desde logo, certamente, uma atenção especial para uma dimensão oficinal da profissão. Naquela altura não existia a integração que agora se verifica, em que o designer compõe glabalmente o seu trabalho, e praticamente exerce um domínio quase completo desde a concepção à produção, através de ferramentas progressivamente informatizadas e sofisticadas. Tendo por formação um curso profissional incompleto, de serralharia mecânica, mas onde contactou com mestres virtuosos do desenho, iniciou a sua actividade profissional numa agência de publicidade, que na época era onde se “criava graficamente”, embora os métodos de trabalho fossem completamente diferentes dos actuais. Eram horas contínuas ao estirador, entre cópias a papel vegetal e artes finais, e progressivamente a utilização imaginativa das limitações da fotografia, por entre sobre-exposições e mesclas de materiais, bem como a “permissão” gradual dos tipógrafos para brincar com as letras, num diálogo entre o texto e a imagem que se foi desenvolvendo e aprofundando. Mas ainda longe da produção do material final, que entretanto conhecia a passagem da composição por tipos, ao fotolito e ao offset, reclamando a atenção de Sebastião Rodrigues para o papel a sair da máquina, e para afinações de relojoeiro até chegar ao resultado visual pretendido. Neste caminho, aprofundou amizades e cumplicidades com os verdadeiros mestres do ofício, produzindo obras de difícil reprodução, hoje em dia. Embora tenha ainda presenciado a introdução do computador e da paginação electrónica, já numa fase final da sua vida, em que pouco produziria, não se seduziu por um certo facilitismo tecnológico que se adivinhava, mantendo-se fiel ao rigor da ideia e do desenho, de onde, segundo ele, tudo nascia. A sua prática profissional acompanhou assim a história das artes gráficas nos anos decisivos que mediaram entre a tipografia tradicional, praticamente inalterada durante cerca de quinhentos anos, e as modernas tecnologias de impressão que culminaram no computador pessoal, num período historicamente relativamente curto.

Evolução política

Crescendo e desenvolvendo parte significativa da sua actividade durante o Estado Novo, nomeadamente para um organismo do regime como era o SNI, mesmo aí conseguiu, de forma subtil e inteligente, “trocar as voltas” à situação, produzindo objectos gráficos que reclamando-se de raízes tradicionais e portuguesas, não partilhavam dos sentimentos retrógrados do regime em relação à cultura popular, subvertendo assim visualmente a comunicação. As suas colaborações incluem o VERDE GAIO, uma Companhia de dança que se pretendia tivesse um reportório que fosse uma espécie de versão “clássica” da dança tradicional portuguesa; a revista FLAMA, ligada a movimentos da Igreja Católica onde se encontravam os católicos mais progressistas, nomeadamente comunistas; e O ALMANAQUE, onde com Cardoso Pires e um grupo de artistas e intelectuais, igualmente de esquerda, foi exercendo progressivamente a liberdade da utilização da tipografia, como se de imagem se tratasse; e a sua imagética foi evoluindo, construtivista, acompanhando a era tecnológica. Atravessou assim a censura, as exposições internacionais, o marcelismo e ainda pôde exercer parte da sua actividade a seguir ao 25 de Abril. Durante todo este período histórico, foi sempre desenvolvendo e expandindo a sua inconfundível linguagem gráfica pessoal, mas não ficou refém de um fechamento tipicamente português. Incorporou conhecimentos e materiais que lhe vinham do exterior, nomeadamente através das viagens profissionais que realizou para montar exposições, acompanhou as artes plásticas e a literatura; mas diferentemente de outros, mergulhou também nas raízes tradicionais e populares, na etnografia e na arqueologia, mas sempre informado por aquelas referências culturais, o que lhe permitiu utilizar estes elementos visuais no seu trabalho, mais virado para o futuro, que centrado no saudosismo do passado.

Evolução criativa e cultural

Sebastião Rodrigues partiu assim de influências neo-realistas (de Victor Palla, por exemplo), acompanhou o desenvolvimento modernista do grupo do ALMANAQUE, e podemos mesmo afirmar que a parte final do seu trabalho, nomeadamente para a GULBENKIAN, decorre já num ambiente de pré-globalização. De um elegante “classicismo”, diríamos agora, a colaboração com esta Instituição obrigou-o a tomar em consideração outros elementos e outras culturas, numa atitude de “diplomacia visual”, produzindo os mais variados objectos gráficos numa atenção constante ao seu contexto cultural de origem, não deixando assim que a sua expressividade gráfica pessoal, então já consolidada, se sobrepusesse de forma automática e “arrogante”, à realidade concreta de cada projecto. Sebastião Rodrigues percebeu que é precisamente no diálogo e respeito com outras culturas, que a nossa se pode melhor afirmar, até por uma situação de tradição histórica. Esta questão, parecendo “periférica” no contexto da sua obra, é no entanto de uma grande actualidade. Por exemplo, à medida que avança a integração Europeia, os novos países aderentes, querendo em simultâneo modernizar-se e demarcar-se do antigo modelo soviético, discutem a sua identidade visual, chegando a lançar o desafio a designers para a repensarem; e a China, à medida que culturalmente se ocidentaliza e transforma numa potente economia de mercado, onde as diferenças culturais entre as províncias do seu imenso território tendem a esbater-se, discute a forma de manter alguma da sua diversidade cultural; e até mesmo a Austrália, que herdou valores pós-colonialistas, menosprezando a sua cultura local própria, aposta agora na colaboração de uma agência de branding internacional, para melhor recriar a sua identidade. Sebastião Rodrigues teve o “feeling”, antes do tempo, das mudanças culturais e civilizacionais que estavam para vir, e perseguiu um trabalho intelectual de rigor às suas raízes, não “autista”, mas sim “em rede”, como agora também diríamos, com os ventos de mudança e a diversidade cultural, cuja necessidade se reconhece no presente.


Bibliografia

Sebastião Rodrigues / designer (Livro): Fundação Calouste Gulbenkian, 1995

Sebastião Rodrigues / designer (Catálogo): Fundação Calouste Gulbenkian, 1995

Diciopédia 2008: Porto Editora, 2008

Pesquisas na Internet: Revista FLAMA, Sena da Silva, Victor Palla, Fred Kradolfer Técnicas de Impressão (www.tipografos.net)

Sebastião Rodrigues (última edição 2008-06-13 10:12:22 efetuada por jgmateus)