Desenho Gráfico

Análise dos filmes de Nick Park e Peter Lord

Análise da Narrativa:

“The Wrong Trousers”
Gromit faz anos e Wallace oferece-lhe umas calças automáticas que o levam a passear. Entretanto Wallace percebe que está com alguns problemas monetários e decide alugar um quarto. Em resposta ao anúncio posto por ele, aparece um pinguim que posa como um hóspede inocente. No entanto, ao tomar conhecimento das calças usa Wallace como seu cúmplice involuntário, para um assalto, tecnicamente avançado, a um diamante em exibição no museu da cidade. Cabe a Gromit salvar a situação, terminando com uma sequência de perseguição no comboio ao redor da sala e que leva à captura do pinguim.

“A Close Shave”
Wallace e Gromit têm um novo negócio de limpeza de janelas. A certa altura uma ovelha vai ter a casa deles e têm assim a oportunidade de experimentar uma nova invenção, o “Knit-O-Matic”, que limpa e tosquia. A ovelha, Shawn, tinha fugido de Wendolene Ramsbottom, por quem Wallace nutre grande afecto, e do seu maléfico cão. Ela possui uma loja de lã e ambos têm andado a usar ovelhas para repor o stock. O seu cão Preston copia a máquina de Wallace e, para piorar as coisas, cria uma outra com a finalidade de fazer das ovelhas comida para cão. No final, é ele que acaba no dispositivo e descobre-se que é um robot.

Ambos os filmes se situam entre a aventura e a comédia, com a adição de um elemento romântico em “The Wrong Trousers”.
A narrativa é composta, aproximadamente, por 400 planos em “The Wrong Trousers” e 600 planos em “A Close Shave”. Muitos gravados do mesmo ângulo com enquadramentos diferentes e posteriormente alternados com outros. São frequentes pequenos ciclos, repetições de sequências de dois ou três planos, a fim de acompanhar gradualmente as reacções das personagens, ou desenvolvimentos na história. O número de planos num determinado espaço de tempo é inversamente proporcional ao seu tempo de duração e está relacionado com a acção; quando aumenta os planos são vários e curtos. É o que acontece no segundo filme, há um maior número de cenas no mesmo espaço de tempo, 30 minutos, para lhe conferir mais dinamismo. Os planos mais comuns são os médios e aproximados, para as personagens, gerais, descrevem o espaço e situações mais complexas, seguindo-se os de pormenor e muito aproximados, que aparecem em momentos cruciais da narrativa e põe em foco personagens, acções ou elementos. Por vezes são também usados planos picados e contra-picados (na cena da limpeza do relógio, por exemplo). O êxito dos filmes deve-se em parte a efeitos especiais, como transições entre cenas e “fade out”, que marcam a passagem do tempo na narrativa, travellings vários, horizontais e verticais, para descrever situações ou acompanhar o movimento das personagens (como na cena do roubo do diamante, a câmara acompanha o trajecto de Wallace e vemos peças do museu em primeiro plano desfocadas), zooms “in” e “out” usados principalmente para aumentar a intensidade dramática das cenas, para descrever pensamentos e sentimentos nomeadamente às personagens mudas e ao pinguim, que não revela emoções através de expressões faciais. Os zooms rápidos definem também momentos de revelação da narrativa. Enquadramentos tipo moldura, com objectos de cena, por exemplo quando Wallace vai à dispensa e encontra a caixa de cereais mordida, ou quando vê Wendolene pela primeira vez através do objecto (ou brinquedo, ovelha a fazer malabarismo com novelos de lã) da montra da loja. Outra estratégia usada é o recurso a diferentes níveis na focagem dos planos. Por vezes aparecem desfocados os elementos menos relevantes, cenário de fundo, ou acontecimentos com alguma relevância com um sentido de “entretanto” na história, conferindo um certo humor à situação (como quando, no inicio de “A Close Shave”, Gromit aparece em primeiro plano, enquanto a ovelha passa por trás dele desfocada, ou em “The Wrong Trousers”, Wallace passa desfocado ao fundo a saltar nas calças mecânicas, e novamente Gromit pensativo em primeiro plano). Outras vezes este recurso é usado para fazer a transição entre dois níveis da profundidade de campo com fim a alternar de uma personagem para outra.

Análise das personagens:

Wallace é um inventor excêntrico, desastrado, simpático e inocente que adora queijo e Gromit é o seu cão, sempre disposto a desenrascá-lo de alguma encrenca. É um companheiro leal, inteligente, paciente e silencioso, visto que não tem boca, e que concentra toda a sua expressividade nos olhos, sobrancelhas e gesticulações. O pinguim é um ladrão fugitivo de pequenas proporções que se instala na casa da dupla, em “The Wrong Trousers”, e se disfarça de galinha pondo uma luva vermelha na cabeça para não ser reconhecido. Wendolene é a dona de uma loja de lã e Preston o seu cão, também privado do uso da fala, que no final se revela um robot, o vilão em “A Close Shave”. Tem por missão transformar as ovelhas em comida de cão. Uma dessas ovelhas é Shawn, uma criatura indefesa que come tudo o que vê pela frente, mas que no decorrer da história se percebe que tem alguma inteligência e acaba mesmo por ajudar na resolução dos problemas.
Esteticamente, as figuras humanas são muito peculiares, têm globos oculares muito juntos, narizes e orelhas grandes, bocas largas, cabeças estranhas e mãos e pés gigantescos. A incorrecção anatómica também sucede nos animais, sendo estes bastante irreais. As personagens são feitas de plasticina e têm uma estrutura de metal articulada que facilita os movimentos e combate os efeitos da gravidade e perda de firmeza. Para partes que não se movimentam é usada uma massa especial mais resistente. Os olhos são de plástico, com orifícios nas pupilas, o que permite que as orbitas sejam movidas com a ponta de um clipe. Movimentam-se de forma natural e humanizada. Os animais usam os braços e Preston anda sobre dois membros. Wallace é relativamente lento a mover-se, de acordo com a sua personalidade calma. Ele vive sobretudo da voz e expressões faciais. Gromit é mais activo até porque se exprime somente através da linguagem corporal e facial. As calças mecânicas movem-se com as dificuldades que um qualquer mecanismo semelhante teria. Os bonecos têm tamanhos diversos e, de forma a conseguir uma boa integração nos cenários, os autores recorreram a alguns truques. As proporções dos objectos cénicos definem-se em relação às grandes mãos de Wallace. O mobiliário, por exemplo, é mais volumoso e arredondado que o normal. Outros elementos são também adaptados à dimensão das personagens. A cama do quarto para alugar é maior do que a cama de Gromit, ajustando-se ao altura do pinguim. Este é muito pequeno e é cómico vê-lo a transportar as pantufas de Wallace, que têm quase o seu tamanho.

Análise dos cenários:

Os cenários, ao contrário do que acontece com as personagens, são muito realistas, inspirados em Manchester: casas, ruas, céu; na vida duma Inglaterra rural que é recriada detalhadamente. No entanto, no exterior ocorrem distorções propositadas, simulando imagens resultantes de grandes angulares, que expandem a perspectiva. A decoração é muito importante, faz distinção entre ambientes acolhedores, como a sala e o quarto de Gromit, e ambientes frios e desagradáveis, como a cave e o quarto a alugar. Todos os detalhes são estudados e os objectos são colocados em cena estrategicamente. São usados muitos padrões para tudo, papéis de parede apropriados às divisões da casa (motivos com ossos para Gromit e com peixes para o pinguim), texturas (madeira, pedra, tecidos), diversos elementos decorativos (alvo, quadros, gnomos do jardim) e embalagens de produtos autênticos, como detergentes, cereais “korn flakes”, livros reais, etc. Foi intenção dos autores conferir mais textura e pormenor nestas duas curtas-metragens do que na primeira, “A Grand Day Out”, através do exagero do tamanho de objectos do dia-a-dia entre outras coisas.

Iluminação:

Foi usada para os filmes uma luz fraca para evitar deteriorar os bonecos de plasticina, mas o processo de gravação assemelhou-se ao dos filmes com actores reais. Houveram no entanto limitações derivadas do reduzido tamanho dos cenários, que foram resolvidas recorrendo a pequenas lâmpadas e espelhos para criar os efeitos de luz até nos cantos mais difíceis. A luz descreve a altura do dia em que se passa a acção, através da tonalidade. É indispensável para criar os ambientes adequados a cada cena, para conferir maior ou menor empatia com os locais onde se passa a acção. Muitas cenas são gravadas com pouca luz de tom azul, no sentido de expressar a luminosidade nocturna. Nas situações de interior vemo-la a entrar pela janela e a desenhar o contorno das personagens ou elementos cénicos nas paredes. O recorte da luz e sombra exagerado é usado para enfatizar alguns momentos de tensão, como quando Gromit vê as calças mecânicas pela primeira vez.

Narrativa sonora:

Os diálogos são bem conseguidos através da sincronia entre a voz e os movimentos dos lábios e face das personagens. Por vezes, são abafados por outros sons ou pela música e não tem uma grande legibilidade, mas deliberadamente. Isto acontece, por exemplo, quando Wallace é levado pelas calças ao longo da rua até desaparecer no horizonte do cenário, aliás bastante distorcido como já mencionei. É também intencional o eco no quarto alugado, para transmitir o desconforto de um espaço inabitado. Os ruídos são indissociáveis da narrativa, descrevendo movimentos e acções das personagens que por vezes não são explícitas visualmente, e acentuam o tom cómico da história. Acompanham também personagens mudas, como Gromit, complementando a descrição dos seus pensamentos e sentimentos através das expressões faciais. A música descreve ambientes românticos, de aventura, drama, alegria... Segue o ritmo da história e faz a transição entre momentos descontraídos e momentos de tensão. Por vezes, em instantes decisivos o volume aumenta, acompanhando a tensão da narrativa. É o que acontece na cena em que se apresentam as calças mecânicas. Em casos particulares a música surge como integrante da própria narrativa, como quando é emitida pelo rádio, propositadamente pelo pinguim, e causa grande incómodo a Gromit, que acaba por abandonar a casa.

Breve comentário

As três curtas-metragens de “Wallace & Gromit” foram nomeadas para Óscares e estas duas foram premiadas. Posteriormente, foi criada uma série de televisão para o Reino Unido e agora, após cinco anos, surge a longa-metragem “Wallace & Gromit in The Curse of the Were-Rabbit”.
A animação é feita em stop-motion, fotograma a fotograma, no qual cada movimento e expressão de cada personagem têm que ser minuciosamente moldada à mão ou com uma espátula de madeira, para não danificar a plasticina. A mínima alteração da pose dos bonecos é filmada 24 vezes para se obter um segundo de movimento, o que resulta numa extraordinária fluidez visual.
Por se tratarem de filmes de animação muitas pessoas pensam que são infantis, no entanto são adequados para todas as idades. Enquanto os mais pequenos se divertem com as personagens e situações da história, os adultos são surpreendidos por elementos mais sofisticados. São dotados de grande sentido de humor, com piadas visuais, trocadilhos inteligentes, engenhos estranhos, por vezes inspirados noutros filmes.

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