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O conceito que desde logo escolhi para abordar neste trabalho foi o conceito de Atlas, na sua atitude fria de mostra e reunião de conteúdos, que esclarecem ou nos dão informação precisa sobre determinado universo.
Numa primeira fase do projecto decidi limitar, ou talvez melhor, delinear o meu universo, a coisas que não vemos ou não temos o acesso visual, mas que existem dentro de objectos que vemos diariamente. Exemplo melhor disto, será talvez um universo que exemplifiquei numa das aulas, quando percebia que ninguém estava a chegar onde eu queria: não temos acesso visual directo a toda a parafrenália que compõem um sistema (físico) de projecção de um "data-show", e o que eu me propunha a fazer, era mostrar esta parafrenália, por exemplo, fazendo com que o projector projecta-se o seu próprio interior.
Não muito satisfeito com os exemplos que escolhia, pensei naquilo que nunca veremos, ou teremos acesso visual, a não ser por intermédio de imagens. Falo especificamente do nosso cérebro, que por razões físicas e fisiológicas nunca o conseguiremos ver directamente, o que não acontece com o projector, que pegando numa chave de fendas, o podemos abrir e ver directamente aquilo que possui no seu interior.
Pensando sobre isto, cheguei à conclusão de fotografar o nosso cérebro, mas como?
A maneira encontrada para o fazer foi tirar fotografias a um T.A.C., ou como é explicado, a um T.C. (Tomografia Computurizada).
A nível técnico, este problema de tirar fotografias a um T.C. parecia um pouco complicado, mas depressa foi resolvido. A placa do T.C. teve que ser fotografada utilizando uma mesa de vidro com o "flash" a ser disparado por baixo (não poderia ser uma outra luz florescente qualquer, devido à sua frequência). Para não ficar a luz "chapada" e com a forma rectangular do "flash", a luz deste teve que ser difundida, usando uma placa branca de esferovite com um ângulo de 45 graus por baixo da mesa de vidro. O "flash" disparava para a placa branca e a luz era difundida para cima, iluminando por baixo a placa do T.C..
Já com as fotografias tiradas (quinze), cheguei à conclusão de que as imagens eram demasiado parecidas umas com as outras e que por falta de conhecimento nosso, pelo menos no universo da turma ou até da escola, teriam que ser explicadas.
Para isto nada melhor do que uma aula, se possível dada por um médico, visto que uma aula é também um Atlas, para explicar as imagens enquanto registo científico de uma parte da nossa anatomia. Questões estéticas das imagens não são tidas em conta neste trabalho.
Devido a um problema de programação da apresentação do trabalho (já que este era para ser apresentado na aula anterior no qual participaria um médico convidado e que por motivos profissionais não pode estar na aula que se determinou depois para o efeito) a apresentação ou "output" passa a pôr em causa a objectividade ou utilidade do trabalho realizado segundo o conceito de Atlas. Isto é, passando eu a dar a tal aula (a partir da explicação, sobre a parte científica das imagens, que tive individualmente com o tal médico convidado), o conceito de Atlas supera aqui a sua simples existência física, para se relacionar com o indivíduo e servir de fonte de conhecimento para este indivíduo (motivo para o qual um Atlas é construído), que neste caso sou eu. Esta explicação encontra-se registada num ficheiro audio que entrego juntamente com o resto da documentação do trabalho.
Devo dizer ainda que a escolha de diapositivos como suporte fotográfico, tem haver com o próprio conceito de aula, já que é ainda um suporte bastante utilizado por professores, sobretudo professores da área que se relaciona com o trabalho, a Medicina.

Parti para este trabalho, não na tentativa de registar o momento, ou os momentos, da deriva, mas sim utilizá-la como um meio possível de reflexão sobre algo que a própria pudesse proporcionar. Contudo não deixei por isso de registar momentos da deriva, momentos que apenas se podem tornar especiais pelo simples facto de terem sido registados, e registos que servem como suporte/fundamento dessa tal possível reflexão pós-deriva.
A minha deriva teve como cenário uma cidade, que embora visite com alguma frequência, ainda é de alguma maneira estranha para mim, estranho no sentido de existirem sítios que eu não conheço, mas que para a maioria das pessoas que vivem aqui são perfeitamente familiares. Falo da cidade de Évora. Uma cidade que pelas suas características arquitectónicas (casas pequenas e térreas, que possuem janelas a uma altura que proporciona o sujeito, que passeia na rua, a visão para o interior da casa) possuem códigos comuns, à população, que não sendo em si estranhos para o visitante de fora, se tornam em tal, pelo extremo a que estes são levados.
O meu trabalho assenta então num código, que ao longo da minha deriva, pelas ruas de Évora, se tornou para mim significativo, e mesmo exaustivo à minha percepção, um código, que assenta na procura da privacidade. Vêem-se então, constantemente, janelas atrás de portadas que por sua vez se encontram atrás de redes, que por sua vez ainda se encontram atrás de grades, impossibilitando qualquer espreitadela bem sucedida para o interior da casa. Isto levanta não só o problema quanto à privacidade das pessoas, como demonstra, também, um certo aprisionamento das pessoas que vai contra o próprio modelo que nos foi proposto para o trabalho, a deriva, e tudo o que o conceito acarreta. Isto é apresentado através de uma imagem fotográfica de uma dessas janelas. Tentei escolher uma imagem que de facto fosse o mais significativo da minha reflexão.
Em contra-ponto, apresento uma outra imagem, que nos demonstra, que apesar desta procura de privacidade exaustiva, também existem excepções, excepções estas levadas ao extremo, mas que desta feita não parece ser fruto de um código social, mas sim de um erro, ou desleixo, arquitectónico. Uma janela que nos dá acesso a um dos locais mais íntimos de uma casa, uma casa de banho, e como se não bastasse, colocada ao nível do olhar de quem está sentado na retrete dessa mesma casa-de-banho, possibilitando a quem está de fora a visualização dos momentos mais íntimos de uma pessoa.
A minha reflexão acaba então numa procura do equilíbrio entre os extremos que são apresentados nestas imagens.

A banalidade é aqui apresentada como um problema que hoje em dia é colocado, principalmente ao nível do design, que se refere à perda de identidade de uma marca através da sua própria banalização.
Esta imagem passou de certa maneira, através do seu uso exagerado, a ser uma marca. Uma marca que passou a ser de todos e que tende a perder, por esse tal uso abusivo, as suas raízes e o seu sentido mágico que outrora pudesse ter, ou seja, a ficar gasta.
Esta imagem, tenta não só levantar o problema ao nível do ícone, Che Guevara, como representação de uma personagem ideal que a história recente nos relata, como também levar o problema à questão da própria imagem em causa, neste caso uma imagem de alto-contraste dessa tal personagem. Aqui a imagem é apresentada desgastada, tendo perdido a cor, a sua definição, pelo seu constante uso abusivo. Quando falo do uso abusivo, não estou a condenar pessoas, mas sim a apresentar um modelo de banalização da imagem através de um processo que se torna mesmo legítimo, se tivermos em conta o contexto desse da criação desse tal ícone. Eu próprio para chegar a esta imagem submetia a esse uso abusivo, fazendo-a passar por mais dois meios de mediação, a televisão e depois a fotografia, à qual temos acesso.
Este processo, ou pelo menos estas etapas do processo, apesar de não serem novas no contexto desta imagem, acaba por torná-la minha e não de outra qualquer pessoa, deixando assim uma marca na própria marca. Refiro-me à lista que a imagem possui, tendo sido esta, fruto da mediação por parte da televisão.
Devo dizer ainda, pois fez parte de recuos, e depois avanços, meus na elaboração do trabalho, que a imagem representando o rosto deste "ícone ideal", e apesar de ser uma imagem em alto-contraste, perdendo algumas definições de rosto, não deixa, pela posição do próprio rosto e olhar, de ter um carácter quase celestial, e clássica, que de certa maneira nos faz olhar para ela de um modo não tão frio como a sua banalização nos pode dar a entender.