screenshot screenshot screenshot screenshot screenshot screenshot screenshot screenshot

margarida duarte + pedro cardoso + nelson ferreira
[projecto conjunto]

Nada garante que Kublai Khan acredite em tudo o que diz Marco Polo ao descrever-lhe as cidades que visitou nas suas missões, mas a verdade é que o imperador dos tártaros continua a ouvir o jovem veneziano com maior atenção e curiosidade que a qualquer outro enviado seu ou explorador.
CALVINO, Ítalo: Cidades Invisíveis (1990), pag. 9

A história que acompanha toda a obra trata dos relatórios que Marco Polo relata ao rei dos mongóis sobre as cidades que havia visitado aquando as suas viagens pelo império do Khan. As cidades revelam-se fascinantes, oníricas, surreais e imaginárias. Estão em constante construção através de caminhos que se desenvolvem, se abrem, se bifurcam, e, por isso, nunca se apresentam os mesmos.

Para conhecer e entender as cidades, é necessário manter o espírito em movimento, o olhar sempre novo e investigador. Calvino torna-se por isso, um estratega do olhar. Ele constrói a sua obra (ou as cidades) utilizando como alicerces as narrativas hipertextuais, sem que nunca consigamos ter ao alcance de nossos olhos tudo o que ela contém. “As cidades invisíveis” apresentam uma estrutura fragmentada, de leitura não linear, semelhante ao que se pode denominar de rede, obra aberta ou até mesmo, obra em movimento.

Esta obra afirma-se em contraposição à imutabilidade, aos conhecimentos do mundo cristalizados e é uma entrada no domínio da desterritorialização dos sentidos. Nas cidades, tudo muda incessantemente. Trata-se no fundo de “micro-mundos ficcionais” inseridos numa estrutura maior, de narrativas descritivas da cidade que se entrelaçam, que se encadeiam não pelos traços comuns que revelam mas pelos que dissimulam, num processo de continuidade e descontinuidade, onde o todo se pode fragmentar em diversas variantes.

Este trabalho demonstra como é possível, tal como “As Cidades Invisíveis”, construir diferentes percursos ou cidades (no caso do livro), conforme se privilegiam determinados aspectos. Desta maneira, este projecto acompanha os aspectos focados nos parágrafos anteriores. A nossa abordagem fotográfica dá azo a várias possibilidades narrativas.

Apaixonava-me a ideia de contar uma história. A fotografia ao fim e ao cabo, opera sempre por sequências. (…) Tinha utilizado a memória. Na minha composição o que vês, o que crês que vês, e o que recordas ter visto unem-se de certa maneira.
HOCNEY, David.