Entre muitos outros conceitos, a deriva assenta num que consiste na aceitação de tudo que possa acontecer enquanto esta decorre. Partindo desta “aceitação” decidi fotografar a minha deriva na sua integralidade aceitando assim toda a informação que fosse registada na película fotossensível. Obviamente que o registo de toda a deriva num único fotograma conduziria-o formalmente, pelo excesso de informação, a um fotograma branco. Queria então evitar esta previsibilidade. Queria fornecer um registo que me levasse a mais que este previsível fim. Algo um pouco mais descontrolado.
Estabeleci então um método onde não tivesse que me preocupar com a selecção da informação a registar. Colocando a câmara fotográfica ao pescoço, sem ver o que registava; aplicando uns filtros sobre a objectiva, para amenizar a intensidade lumínica que se encontrava durante o dia; e definido que passaria para o registo num novo fotograma quando mudasse de direcção durante a deriva, evitando o fim acima referido. Assim cada imagem corresponde, numa perspectiva de topo, a segmentos de recta que determinariam o percurso a que a deriva me levou a fazer. Decidi também que a duração da deriva corresponderia ao número de fotogramas disponíveis no filme que tinha carregado à já uns tempos atrás, resultando em 32 onde os outros 4 já continham informação alheia. Deste modo não me correria o risco de me desconcentrar no acto de derivar ao ter que carregar outro filme e ao ter que pensar na sua própria duração.
Quis apresentar também todo a integralidade dos fotogramas obtidos com o objectivo de demonstrar a aceitação circunstancial em que essas imagens foram obtidas. Demonstrar que não houve em enquadramentos posteriores. Apresento toda a imagem conjuntamente com os elementos que a rodeiam, barras negras e alguns ruídos resultantes da película fotográfica usada. Como uma moldura que mostra essas imagens como um objecto integral e o encerra. O facto de ter escolhido uma película monocromática serve também este propósito. Ela acaba, hoje em dia, por nos remeter para um classicismo e para o analógico, reforçando a ideia de objecto físico que é posta em causa pelas práticas digitais que cada vez se tornam mais comuns.
Como resultado deste registo que partiu desse conceito de aceitação resultaram imagens com características bastante paisagísticas. Todo o excesso de informação e todo o movimento registado resulta em imagens bastante mais calmas e solenes. Autênticas paisagens onde as suas formas indefinidas levam-nos para o contrário do seu ponto de partida.